sexta-feira, 5 de abril de 2013

Mitologia Íntima


Pouso a noite, sepulcro da eternidade,
Sobre minhas retinas suadas,
E miro em Órion e em horóscopos luminares,
Tateando em vão alguma luz em meu espírito
Tocado há muito pela solidão
De um Hades em meu peito.

Tomo a taça como uma dama:
Um beijo quente em suas bordas molhadas,
E sinto seu tinto batom em meus lábios...
Eu, o filho de Baco e de leviatãs nublados,
Desertor de doze trabalhos maçantes,
Retirante de Asgard,
Cambaleante entre os frígidos dias capitalistas
E as afrodites noites a me embebedar
Da tua ausência poética...
Eu, o nobre soturno,
Admoestado por uma horda de demônios
Na odisseia dantesca em que navego,
Perdido em bússolas desnorteadas
E redemoinhos que me afogam em mim mesmo.

Por Zeus do céu,
Sou um ciclope cego no labirinto mundano,
Sem deuses ou heróis, sem divindade ou heroísmo,
Beijando Gaia em cada queda diária, sem Olimpo,
Amando Nix como um filme de Tinto Brass,
Desalmando cada gozo em frenesi frívolo,
Bailando com ninfas a preços vis nas esquinas.

Por Deus
(Talvez o maior dos mitos seja Este),
Minha crença cadavérica abraça Seth
E mergulha noite adentro nos subterrâneos
Em que Cilas de quadris vorazes
Comem minha alma sem cura
E expelem o que resta de mim
Sobre uma cama solitária.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Ensaio sobre a amizade


Sou enteado de um mundo agonizante frente ao espelho do próprio umbigo; órfão de um tempo suave, onde a amizade sacralizava cada abraço: um por todos e todos por um.

Mas aquela velha ideologia adolescente agora é apedrejada pelos mesmos caras que um dia compraram o meu barulho no fronte; aquela turba de infantes agora bebe Coca-cola e arrota de satisfação nas mesas burguesas; aqueles camaradas se perderam por aí, por entre as modas e as moedas... E ninguém mais derramará uma gota de sangue ou uma lágrima por um sonho ou um amigo.

Estamos cada vez mais sozinhos e cada vez mais não temos por quem lutar.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

América Latina, um povo ao sul dos Estados Unidos

Hoje, eu quero gritar ao ego das massas individualistas, erguer o punho esquerdo e tocar o céu da igualdade. Hoje, eu quero sorrir pelo sorriso de felicidade da gente humilde da minha terra, a América Latina.

Hoje, eu quero ver o mundo pelos olhos de uma criança, deixar meu espírito beijar os lábios daqueles que até ontem não tinham voz. Hoje, eu quero festejar a supremacia da minha raça, a humana.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Pare o mundo que eu quero descer!

Saudoso Raul, mas quero falar do Renato Russo...

Olhando o blog da Yvonne Maggie na Globo.com (aqui), deparei-me com aberrações que me fazem vomitar (santo Plasil), lâminas afiadas que fazem meu espírito sangrar (santo Rivotril). Não tanto pela postagem, mas principalmente pelos comentários dos leitores.

"Se começar a tratar dependente químico como doente, daqui a pouco vão exigir um Cartão Dependente Químico”, escreveu uma leitora. "Se o viciado decidiu se viciar, problema dele", escreveu outro. Para completar, um terceiro veio e me deu um soco no estômago: "Se o Estado gasta dinheiro público com a saúde de quem não deseja ser saudavel, com que verba vai investir em saúde e educação para os homens e mulheres de bem?"

Li dezoito comentários e todos seguiram o mesmo tom de "foda-se o viciado", como se quisessem passar com o carro por cima usuários de crack na Avenida Brasil a fim de limpar a cidade. Foi impossível não me lembrar do Renato: "E há tempos são os jovens que adoecem / E há tempos o encanto está ausente / E há ferrugem nos sorrisos / Que só o acaso estende os braços / A quem procura abrigo e proteção" (Há Tempos - Legião Urbana).

Se o Estado não der abrigo e proteção, se o Estado não devolver o encanto e limpar a ferrugem dos sorrisos dos nossos filhos, irmãos e pais viciados, se o Estado não pedir desculpas por anos, anos e anos de desamparo, se o Estado não se redimir por mais de cem anos de abandono depois da Lei Áurea, o que nos resta? Deus? Mas "nem o santos têm ao certo a medida da maldade", cantava o Trovador Solitário. Se o Estado não protege e defende o seu povo (todo o povo), para que serve o Estado?

Hoje eu aprendi uma lição importante: antes que o Rivotril faça efeito, rezarei pelos ditos "homens e mulheres de bem". Eles também precisam de ajuda.

"Parece cocaína, mas é só tristeza". Talvez seja isso.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Uma questão de valor

Era tudo tão mais simples, tão mais vivo: sorríamos descompromissados, abraçávamos nossos iguais, bebíamos um vinho barato em banquete, sentíamos o gosto do asfalto em nossos pés e o beijo da liberdade em nossos lábios.

Mas fomos nos perdendo aos poucos... Um emprego aqui, um terno ali, um cartão de crédito num mês, noutro um carro... E quando nos demos conta, o passado nos pareceu tão pobre.

Agora nossas conversas são destiladas de números, lucros, imóveis... Inebriantes! Nossos sonhos deram lugar à ganância; nosso adjetivo preferido é "rico"; e nossos abraços e sorrisos se tornaram mais uma arma na busca pelo sucesso nos corredores de alguma grande corporação.

****

- Arromba logo esse cofre!
- Calma... Tá indo, tá indo - respondeu o outro bandido.
- Quer que eu faça?
- Não... Consegui!
- Coloca tudo na bolsa e vamos dar o fora!
- Porra!
- O que foi?
- Só tem foto... Merda!
- Não tem dinheiro, jóias, dólares?
- Não! Só umas fotos velhas...

Promoção Fragmentos Noturnos

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segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Fragmentos Noturnos

Os primeiros comentários acerca do livro FRAGMENTOS NOTURNOS foram positivos. Para ilustrar, seguem as palavras do escritor Carlos Trigueiro: "Sua poesia é direta, sem rodeios, porém com metáforas fortes."


Abaixo, alguns fragmentos destacados por leitores:

"Embebedamo-nos do tempo em fria noite.
Na manhã seguinte, a ressaca: a morte."
(fragmento V)

"Não me bastam as estrelas,
Abraço também o oceano escuro entre elas."
(fragmento XXV)

"Navios negreiros pelos valões!
Camburões
     De senzalas pelas avenidas!
Televisões
     De acéfalos pelos sofás!
Calmarias ideológicas pelas eleições!"
(fragmento LIV)

"Rabisco os muros da sociedade,
     Mas indiferentes seguem seus transeuntes encoleirados,
     Pequenos cães de madame,
     Abanando o rabo,
          Sorrindo docilidade e idiotice!"
(fragmento LVI)

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Fragmentos Noturnos

No último dia 20, aconteceu o lançamento do meu livro "Fragmentos Noturnos", no Espaço Multifoco, no boêmio e tradicional bairro da Lapa, no Rio de Janeiro. Agradeço a quem compareceu ao evento e prestigiou o lançamento do meu livro de estreia.

Thiago Luz



segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Alexandre, o Grande

Reza a lenda que, à beira da morte, Alexandre, imperador romano, convocou os seus generais e relatou seus três últimos desejos: que seu caixão fosse transportado pelas mãos dos médicos da época; que fossem espalhados no caminho até seu túmulo os seus tesouros conquistados (prata, ouro, pedras preciosas...); e que suas duas mãos fossem deixadas balançando no ar, fora do caixão, à vista de todos.

Um dos seus generais, admirado com esses desejos insólitos, perguntou a Alexandre quais as razões. Ele, então, explicou: “quero que os mais eminentes médicos carreguem meu caixão para mostrar que eles NÃO têm poder de cura perante a morte; quero que o chão seja coberto pelos meus tesouros para que as pessoas possam ver que os bens materiais aqui conquistados, aqui permanecem; quero que minhas mãos balancem ao vento para que as pessoas possam ver que de mãos vazias viemos e de mãos vazias partimos”.

Que o Natal não seja somente mais uma data comercial.

FELIZ NATAL!!! 

sábado, 8 de dezembro de 2012

"Fragmentos Noturnos" - Noite de lançamento

O lançamento do meu livro "Fragmentos Noturnos" (gênero: poesia) será no dia 20  de dezembro, das 18:00 às 21:00, no Espaço Multifoco (Av. Mem de Sá, 126, Lapa - Rio de Janeiro).


terça-feira, 6 de novembro de 2012

Cada um por si

Sorrisos, todos precisamos! Mas, às vezes, o semblante que nos acaricia a alma é justamente o de um desconhecido sem peso em nosso passado. Porque nossos amigos, aqueles que já choraram e sorriram com a gente, aqueles que já beijamos e abraçamos como irmãos, fugiram das nossas vistas.

Tudo bem, não temos mais dezesseis, nossa turma não é mais nossa família, e me parece mais fácil conquistar uma aldeia distante, sendo um forasteiro, do que a nossa própria aldeia, sendo um filho da terra.

No fundo, no fundo, ninguém realmente se importa com nossas batalhas diárias, nossas pequenas conquistas, nossos tropeços, nosso brilho breve de vaga-lume. É, nós crescemos, somos adultos, e aquele velho ideário mosqueteiro de um por todos e todos por um morreu. É cada um por si, infelizmente!

sábado, 18 de agosto de 2012

Clarice: Feminino Adjetivo

Clarice insere outra adaga,
Sutil carícia no seio da estrela,
E a luz escorre suave,
Folha por folha,
Como um sangue luminar
Que rompe a inércia
Letárgica da realidade
E deságua nas retinas:
Mancha profunda na alma.

E em nossos lábios de morango,
(Sim, para Ela é tempo de morangos)
Um beijo lispectoriano
Desfaz o frio do quarto,
E a solidão se distrai
Ante Macabéa sem panos,
Despida do mundo...
Somos leitores, somos amantes!

Clarice, feminino adjetivo
De qualquer mulher.
Mulher, era Ela!
Somos todos de alguma forma...
Bruxa, misteriosa,
Pequena deusa, ínfimo de Deus,
Abismo íntimo!

(Thiago Luz)

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Olhos Infantes


OLHOS INFANTES

Avante, olhos infantes!
Segue ele, soldado absorto
Em seu reino íntimo,
Livre entre quatro paredes,
Atestando sua essência de menino.

Avante, castanhos flamejantes!
Segue ele, bárbaro à realidade,
Com a idade rutilante da aurora,
“Dom quixoteando” em sala em aula.

Avante, guerrilheiros da face!
Segue ele, um grito silencioso
Em tom de semblante pilhérico
Sob a turba de concentrados,
Guerreando em si, talvez:
A lição ou a imaginação?

(Thiago Luz)
Foto: Robert Doisneau


domingo, 15 de julho de 2012

Não podemos descansar dos nossos sonhos

Não podemos descansar dos nossos sonhos, tirar férias desse "trabalho" que nos motiva. Mesmo que ninguém se importe, e acreditem, poucos realmente se importam, nós continuamos a caminhar, a lutar essa batalha inglória e solitária que trazemos na alma: sonhar.

E como andarilhos nessas trilhas mundanas e tortuosas, vamos em frente. Vez por outra, um sorriso de passagem nos dá fôlego ou um abraço nos protege das frias noites, mas, na maioria das vezes, as faces e os braços não são tão amigáveis... Em verdade, estamos longe da multidão!

Não podemos descansar do nossos sonhos, já disse, e o cansaço, implacável, apenas aumenta esse drama tão humano que é sonhar. Podemos chegar ao final e cair abatidos pelo tempo ou pela indiferença, mas olharemos para trás e sorriremos, porque a alegria sempre esteve na batalha diária, como uma epopeia escrita dia após dia no escuro do quarto, longe dos olhares e dos aplausos. Ou como bem escreveu Bernard Shaw, "nada fui do que sonhei, mas sonhei"